Nem de longe considero o fotógrafo profissional um ser ingênuo. O olhar que sabe refinar detalhes em meio ao caos, que consegue captar beleza em meio a desordem não pode ser enquadrado como um olhar inocente.
Mas é fato que nos tempos atuais (2022) as redes sociais promoveram uma apoteose de audiência para pessoas que até então não tinham nenhuma relevância na ordem midiática. Com o smartphone e uma conta no Instagram qualquer um se torna uma novela, filme, minissérie ou sua própria revista, e a fotografia torna-se vítima neste processo.
Para reter a atenção, vídeos e fotos usam de forma o escatológico de forma abusiva, flertam com a indecência e promovem um mix bizarro de sexualidade, violência e polemicas vazias.
A fotografia dentro deste universo egocentrista se resume apenas em um mecanismo de atração vazio, sem qualquer preocupação com a estética e sem alma artística. Basta o aproximar da câmera nas partes íntimas para que a natureza selvagem do ser humano atropele qualquer resquício de bom censo.
A câmera é sua, faça o que quiser com ela. Mas a mensagem sempre define o mensageiro
Rodrigo Covolan
O fotógrafo sempre foi conhecido por contar a história de algo ou alguém, mas hoje, sendo todo mundo um fotógrafo em potencial, nota-se que a câmera não aponta mais para o outro, apenas pra si.
Há tanta vida em uma praia, parque ou praça, tanta beleza, tanto movimento. Porque a câmera só conhece a selfie? Por que estamos nos esforçando para morar dentro de um espelho?
Não seria mais interessante compartilhar em suas fotografias histórias que não sejam apenas relatos visuais da sua presença presunçosa por tudo que é canto?

Registro de um operário da construção civil. Rodrigo Covolan
O comportamento atual dos milhões de fotógrafos (mesmo que não profissionais) só nos faz entender e respeitar ainda mais aqueles que fazem a sua profissão um verdadeiro livro de histórias, onde os autores respeitam seus protagonistas e raramente a foto fala sobre ele (autor).
Todo mundo tem por perto uma caneta, mas quem consegue produzir um texto, mesmo que básico? Na dispensa se encontra arroz, trigo e açúcar, mas não temos um grande cozinheiro em toda casa.
Óbvio, com a fotografia não é diferente. Mesmo com acesso a uma câmera a maioria não consegue criar uma imagem tecnicamente e esteticamente decente.
Um salve aos verdadeiros profissionais da fotografia!